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16 de jun de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Soneto da penúria






SONETO DA PENÚRIA
PEDRO LUS- O DE CARVALHO



Na cidade há gente com fome,
mulheres e homens maltrapilhos
gente desconhecida, sem nome,
para a sociedade empecilhos.


Essa sofrida vida, que vemos,
nódoa que em nós está grudada
enreda para que a derrotemos
com nosso canto, nossa toada.

Não deixemos que a fome mate
gente à míngua de esperança,
ajuda seja nó que não desate.

Que não venham para enganar,
sempre fazem, habitual usança.
Fome, quer o faminto matar.



*  *  *



9 de jun de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Os vigaristas





OS VIGARISTAS
PEDRO LUS- O DE CARVALHO



Que saibam vocês guardar segredo
das tristes coisas que vou contar,
tristes casos, sem nenhum enredo,
a ninguém fará rir nem chorar.

Pode causar medo a história,
todos somos reféns de bandidos
(triste caminhar, luta inglória)
visíveis todos ou escondidos.


Vigaristas vis do parlamento
gente educada e bem vestida
roubam todos com descaramento,
míseros, pensam ter eterna vida.




*  *  *



2 de jun de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Os desprezados






OS DESPREZADOS
PEDRO LUS- O DE CARVALHO


A ninguém conte o segredo,
a esperança saiu porta afora
meteu-se em becos imundos
breus de torpezas, vis becos
de pervertidos, condenados
todos, sentença irrecorrível
saldo de vidas consumidas,
acre cheiro, vício de pedra
fumaça a revoltear espiral
escultura para os túmulos,
renúncia insultuosa à vida,
da crueldade retrato, chaga
do país à mostra sem recato.



*   *   *



26 de mai de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Acontece comigo






ACONTECE COMIGO
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Alguma coisa acontece comigo
sem que possa explicar o que seja.
Minha vida tem sido assim
há sempre alguma bruma
há sempre alguma tristeza,
sem que possa explicar o que seja.

Alguma coisa acontece comigo
sem que possa explicar o que seja.
Esta dor em meu peito
a desgraça tão presente
o país que não se inveja,
sem que possa explicar o que seja.

Alguma coisa acontece comigo
sem que possa explicar o que seja.
O meu desejo de partir
para na distância viver
paz há quem anteveja,
sem que possa explicar o que seja.




*   *   *






19 de mai de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Cofres e ladrões





COFRES E LADRÕES
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Feche bem essa porta, meu filho,
há muitos ladrões lá fora.
Feche bem essa porta, meu filho,
se entrarem nada sobrará
do que temos.
(Ratos vêm roer nossos pés.)

Sabe onde se escondem os ladrões
dos nossos cofres, meu filho?
Escondem-se em palácios forrados,
tapetes dourados tecidos em ouro
e prata, embriagados pelo poder.

Mas logo tudo passará, meu filho,
essas bocas ilustres dos ladrões
de fala fácil, enganosa fala,
não mais terão o que dizer.

Ouve o vento bater na janela,
meu filho, ouve o suave vento
de harpa tangida, nosso alento,
único discurso para ouvirmos.



  *   *   *





12 de mai de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Lembranças





LEMBRANÇAS
  – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Música, sonoras notas lembram Bach
igreja, reflexão
e religiosidade,
minhas asas para o voo.


Verei da altura, do nublado céu, a cidade
natal, quase esquecida na serra,
São Joaquim
minha primeira objeção.

Dia santo de São Pedro, neve
na manhã
branca
a tecer tapete no chão.

Lembranças avivadas com a sonata
de Bach, som
e solo do violoncelo
aplanando meu caminho.



*   *   *



5 de mai de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - O quarto esquecido





O QUARTO ESQUECIDO
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Há um quarto de dormir
na casa desperta, neste
dia claro, sem lembrança
opaca ou clara de noites
esquecidas. Há um quarto
de dormir esquecido
feito amor velho
trocado por novo amor
botão de rosa do roseiral.



 *   *   *



29 de abr de 2017

[Crônica] PEDRO LUSO - A frustração




         
  A FRUSTRAÇÃO
 PEDRO LUSO DE CARVALHO


Sempre que estou para realizar algum ato, em meu próprio benefício, procuro ficar atento para uma possível frustração. Nada mais comum, no meu sentir, que se ter reação agressiva diante de uma decepção. Tendo-se a consciência da possibilidade dessa reação, é que se pode manter o controle, sem o qual, o mal da reação poderá ser maior que o sentimento de insatisfação.
Quem não sentiu o desconforto de uma frustração? No meu entender ninguém escapa desse sentimento, que estará presente muitas vezes ao longo da vida. Também é certo que a cada decepção, qualquer que seja o motivo, haverá reação por parte de quem se frustrou. Será distinto, porém, o tipo e o grau da reação, que sempre dependerá da situação e do impulso do desejo, que foi objeto de contrariedade.
Não se pode esquecer, no entanto, que esse mal, que poderá advir da frustração, poderá atingir tanto quem se sente frustrado como a quem dá causa a esse sentimento. Também neste outro lado, que envolve quem frustra, a reação agressiva poderá ter graus nas mais variadas escalas, desde um simples insulto quanto a morte, por ato de quem se sente frustrado, como acontece, por exemplo, no crime passional.
Têm-se muitos exemplos de reação agressiva, por parte de quem se sente frustrado, mas que não chegam a colocar em risco a vida de quem dá motivo à frustração. A vida em família é rica em exemplos de descontentamento por quem se sente insatisfeito no que reivindica, que tanto pode ocorrer entre o casal como com os seus filhos. Essas frustrações variam de acordo com a situação socioeconômica de cada família.
Embora muitos sejam os exemplos de frustração, não se pode esquecer de que se trata de um sentimento absolutamente normal. Será uma boa medida, no entanto, que se tenha cautela diante de uma reação exageradamente agressiva por parte de quem se vê frustrado, pois, nesse caso, poderá estar, essa pessoa, acometida de alguma doença mental, sem que seja percebida por quem é causador da frustração.



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21 de abr de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Pátria





     PÁTRIA
           - PEDRO LUSO DE CARVALHO



Há um estranho clamor
vindo da rua.
Ouço os passos
em meio ao rumor,
ameaçadores passos
ritmados perto da casa.


Sou tomado pelo medo
dos gritos
trazidos da rua
pelo vento minuano,
claro sinal da agitação
de homens e de mulheres.

Um breu repentino na janela,
esse breu da noite
aumenta o meu temor
da turba, na rua, próxima
à casa, com ferrolho na porta
incapaz de estancar a avalanche.


Na minha frente, porta e janela
podre porta, de vidro
a janela, frágil proteção.
A turba vocifera; homens
de fortes braços vem unidos,
corpos suados, elos da corrente.

Tantos braços me cercam
na noite avançada,
levam-me para fora,
porta e janela no chão.
Meus braços, agora elos
da corrente pela decência.

Levam-me braços entrelaçados
de homens e de mulheres
unidos pela crença na Pátria,
para erguer seu orgulho, sobra
do esbulho; aproxima-se a hora,
hastearemos a insultada bandeira.




 *   *   *