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12 de jan de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Prisioneiro





PRISIONEIRO
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Tem-me prisioneiro esta casa
às escuras, no seu denso silêncio,
assustador silêncio dilacera
os meus nervos já tão debilitados.

Fechadas todas janelas e portas
da casa, abri-las inútil esforço,
força não tenho para cadeados
e fechaduras com rigidez do aço.

Pulmões inflados, grito que não sai,
a jugular inchada pelo esforço,
som algum se expande neste vazio –
alguém ouvirá o meu surdo grito?

Portas ou janelas não se abrirão,
terei de aceitar esta minha sina,
prisioneiro da hermética casa –
vivo o que me resta nesta agonia.





*   *   *





1 de jan de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Minha Caminhada





MINHA CAMINHADA
PEDRO LUSO DE CARVALHO





Quanto tropeço, quanto sofrimento
quis o destino – nesta caminhada!
Faltam-me números para contá-los.

Foram longas minhas noites insones,
pelos males cometidos na estrada,
pelos muitos reparos que não fiz.

Quantas desculpas terei que pedir?
São muitos os amigos esquecidos!
Fosse meu desejo, como encontrá-los?

Ficou amargura desses meus caminhos,
não perdoei, também não fui perdoado,
vingou-se a estrada tirando-me a alma.






          *   *    *






17 de dez de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – Ano Velho, Ano Novo





ANO VELHO, ANO NOVO
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Ano por se findar, na eterna roda,
ano velho rende-se ao novo ano,
já velho, quando dezembro vier.

Dezembro, mês de sôfrego correr
turva-nos a visão, ardil do tempo,
o ano novo fica velho, nós também.

Escondem, essas festas de dezembro,
 o relógio do tempo, sempre exato,
 da Natureza incorruptível servo.

 


*   *   *




9 de dez de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – Fuzis e Jasmins





FUZIS E JASMINS
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Dedico este poema, que reedito
às Mães da Praça de Maio 
(Madres de Plaza de Mayo), 
Buenos Aires, Argentina.



Quando a moça regava os jasmins
céu de chumbo escureceu o jardim –
sentiu a pátria ferida de morte.

A moça sugou da terra a seiva,
de vulcões esbraseantes lavas,
sua couraça de ossos e nervos.

A pátria seria defendida,
bocas famintas teriam pão
os jasmins tinham o seu jardim.

Foi na noite cúmplice a tocaia,
enfrentou soldados e fuzis –
jogaram o corpo na erma vala.

Uma luz, na escuridão da noite,
clareou a boca, rosa de sangue.
– Os tantos sonhos foram desfeitos. –

Quem por aquele campo passar,
ouvirá as lamúrias do vento,
sentirá dos jasmins o perfume.





 *   *   *




1 de dez de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – As Rosas Vermelhas





AS ROSAS VERMELHAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Queria o homem esquecer a mulher,
mais que a mulher, esquecer a traição.
Refugiou-se o homem no seu jardim,
junto às roseiras, com suas penas.

Com ardor, às roseiras dedicou-se,
amor e alma, seu único horizonte.
Fez o seu mundo de perfume e cor,
paraíso de rosas e roseiras.

Dizem que perfume e viço das rosas
deviam-se só ao sangue do homem
doação de amor, sua recompensa
às rosas vermelhas do roseiral.

O que diziam, a pura verdade:
a fosforescência do roseiral,
mistério das rosas no breu da noite,
planeta de sonhos do jardineiro.

Numa dessas tardes frias de inverno,
encontraram o corpo entre as roseiras.
Sem vida o homem, naquele roseiral,
tinha presas nas mãos rosas vermelhas.




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24 de nov de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO - Naquela Noite no Bar





NAQUELA NOITE NO BAR
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Na penumbra do bar,
misterioso mundo,
mentiras, juras feitas
em segredo mantidas.

Seara dos amantes,
pela paixão enlaçados
tempo fugaz da noite,
na penumbra do bar.

De casais, silhuetas.
Os cristais a tinir.
Sussurros estendidos.
Lembrança ficará?

Curta é essa noite,
breve é a paixão,
como as rosas vermelhas,
esquecidas nas mesas.

Restam sombras no bar,
ficam sons de promessas.
Nessa noite que morre
não há centelha do amor.




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17 de nov de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – Meu Caminho







MEU CAMINHO
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Pudesse escolher meu caminho
outro caminho trilharia
sem ter culpa para expiar.

Resigno-me com minha estrada,
aceito o travo de amargura,
pois pode haver um renascer.

Há transtornos em meu caminho,
conflitos nas encruzilhadas,
tempo de andar e de parar.

Fino-me um pouco nesse andar,
há sempre perigo nas curvas,
facas e punhais na neblina.

Quando não tiver mais caminho,
quem guardará o som de bronze
desses passos, desse meu andar?





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